Mulheres colocam vida em risco com uso de silicone clandestino

Vítimas revelam que ‘bombadeiras’ vêm do Rio e de São Paulo para fazer o procedimento criminoso em JF

Um procedimento estético irregular acabou levando à morte da microempresária Fernanda de Assis, no último sábado, no Rio de Janeiro. Ela havia aplicado um produto na região das nádegas. A situação é grave no país e também afeta mulheres e travestis de Juiz de Fora que têm se submetido à colocação de silicone industrial com “bombadeiras” do Rio. As bombadeiras utilizam o “Barra Mil” em seres humanos, um produto indicado para limpeza de carros, peças de avião, impermeabilização de azulejos e manutenção de esteiras. A Tribuna descobriu que elas têm vindo semanalmente à cidade, a fim de fazer a aplicação da substância imprópria para uso humano em hotéis ou em endereços residenciais. Uma das vítimas localizadas pelo jornal no município admitiu ter aplicado o silicone na mesma região que Fernanda, cuja morte foi provocada por parada cardíaca. No caso da juiz-forana, ela diz ter pago R$ 500 pelo litro do produto. Apesar de apresentar sequelas do uso, como dores e inflamação, ela não procurou ajuda médica e nem denunciou o caso à polícia por medo de retaliação.

Encontrada pelo jornal, uma das travestis que trabalham semanalmente na cidade não quis falar ao telefone. Um homem que se apresentou como “companheiro” dela confirmou a realização das aplicações em Juiz de Fora, mas disse que ela encerrou o atendimento no município “há algum tempo”. Apesar da afirmação, a agenda dela continua cheia. Fotos de vítimas que fizeram as aplicações em suas próprias casas indicam que não houve sequer uso de luvas. O único pedido da bombadeira é que as “pacientes” comprassem embalagens de papel toalha.

Em depoimento à equipe de reportagem, uma das vítimas admitiu que a aplicação do “Barra Mil” ocorreu na sua própria casa, no fim de julho. Desde então, ela relata não ter passado um único dia sem sentir fortes dores e dificuldades para andar. “Sempre quis muito colocar prótese nas nádegas, cheguei a ver valores em uma clínica conceituada de Juiz de Fora. Mas, depois que vi o resultado deste outro tipo de silicone em uma amiga, resolvi arriscar”, contou, dizendo que o fato de a aplicação ser rápida e não necessitar de internação, a motivaram. “Tudo é feito de forma muito prática, você procura a “bombadeira”, diz quanto quer colocar e pronto. Só marca o dia e faz, não tem nenhum exame, nada. Ela te dá opção de ir em casa, e pede só para comprar seis rolos de papel toalha. Só depois fui saber que o “Barra Mil” era usado em carro, avião”, afirmou, dizendo que conhece, pelo menos, outras nove pessoas que fizeram a aplicação.

mulher confirmou que a “bombadeira” não usou luvas em nenhum momento. O primeiro passo, segundo ela, foi receber anestesia no local da aplicação. Depois, a travesti utilizou uma potente seringa de uso veterinário, que é acoplada a uma agulha grossa, por onde passou o líquido. O procedimento durou cerca de 40 minutos. “Mesmo com a anestesia, queima muito quando está colocando. O que me assustou foi a forma que ela fecha o buraco da agulha: com um pedaço de papelão e cola super bonder. Depois que acabou, minhas nádegas ficaram meio quadradas, sem forma. Ela fez uma massagem e disse que, aos poucos, iria voltando ao normal”, revela. As únicas orientações fornecidas pela “bombadeira” é que ela fizesse repouso, não tomasse sol e evitasse comer “carne gorda”.

Ela conta que, só depois que já tinha colocado o silicone, é que percebeu o tamanho do risco. “Comecei a ficar preocupada, quando aquela modelo brasileira que morava na Dinamarca morreu. Recebi em um grupo que essa “bombadeira” que vem em Juiz de Fora estaria envolvida com o pessoal que aplicou nessa moça. Depois, vi que o buraco não fechava, estava vazando silicone. A ‘bombadeira’ dizia pra eu me acalmar, que era assim mesmo, e indicou que eu usasse só anti-inflamatório. Hoje está melhor, mas sinto ainda muitas dores, não consigo mais sentar direito. Quando ando muito, também dói, mas tenho vergonha de procurar um médico e contar a verdade”, disse, acrescentando que pretende tentar retirar o produto.

Dois litros

Uma travesti de 21 anos também aplicou o material com a mesma “bombadeira”. Ela aplicou cerca de dois litros de “Barra Mil” nas coxas e nádegas. A primeira intervenção foi no início do ano, nas nádegas. “A gente sabe dos riscos que tem, claro, mas trabalho com meu corpo, não tenho condições de fazer este procedimento com silicone de verdade, então, fui na sorte mesmo”, disse. Segundo ela, depois de cerca de quatro meses, como a aplicação não apresentou problemas, decidiu colocar o mesmo produto nas coxas. “Foi aí que começou a complicar. Dois dias depois, notei que o silicone estava descendo, minha coxa deformando. Liguei pra “bombadeira”, ela mandou eu apertar um cinto bem forte na altura do joelho e tomar anti-inflamatório. Não adiantou nada, parte do produto foi para o pé. O pior é que sei que não tem como retirar isso”, contou, acrescentando que as nádegas desceram e perderam o formato arredondado.

Transexual morre após aplicar silicone industrial

O uso clandestino do silicone industrial resultou na morte de Gabriella Monbantten, 25 anos, em 2016, em Juiz de Fora. No mesmo ano, pelo menos outras três pessoas foram a óbito em São Paulo, na Bahia e no Piauí. No caso de Gabriella, que era transexual, ela buscava a forma perfeita, mas não tinha dinheiro para recorrer a intervenções plásticas. Ansiosa pela transformação do gênero masculino para o feminino, processo que iniciara seis anos antes, Gabi encontrou terreno livre para a compra do produto em sites de venda na internet. De uma única vez, adquiriu cinco litros de silicone industrial a R$ 129,90. Mas o sonho de ser reconhecida como mulher foi interrompido na mesma noite em que utilizou o produto na tentativa de fazer crescer as mamas. No momento em que a substância proibida para uso humano entrou em contato com seu organismo, ela sentiu-se mal, o ar lhe faltou, o corpo foi tomado por fraqueza. Sozinha em casa, Gabriella reuniu as últimas forças para acionar o Samu. Levada para o HPS, ela deu entrada na unidade por volta das 22h.

Quando a psicóloga Isabella Pippa Ferreira – irmã mais velha da jovem – chegou ao hospital, um enfermeiro foi logo avisando: “Sua irmã injetou uma bomba”, disse. Sem entender bem o que havia ocorrido, ela foi ao encontro de Gabriella. “O que você fez”, perguntou, atônita, diante do estado da irmã. A transexual olhou nos olhos de Isabella. “Eu só queria ser bonita”. Iniciava ali um drama que duraria dez dias, a começar pela internação da paciente na ala masculina do Pronto Socorro, embora Gabi não se reconhecesse como homem. “Existe uma grande dificuldade do SUS em atender e reconhecer esse público”, lamentou Isabella ao relembrar o episódio.

Depois, vieram as necroses e sucessivas raspagens realizadas na Santa Casa na tentativa de retirar o silicone do corpo da paciente, que foi mantida na filantrópica em um quarto só para ela. Dois dias antes de morrer, Gabi sentia tantas dores, que nem a morfina fazia mais efeito. A jovem compreendia que não conseguiria mais se recuperar e, por isso, fez um último apelo a sua irmã mais velha: “Muitos vão me julgar, poucos vão me entender, mas me estuda, porque várias pessoas passam pelo que estou passando para alcançar o que querem. Porém, eu não volto mais”, disse, em tom de despedida.

Gabriella morreu às 22h15 do dia 28 de julho de 2016. Segundo o atestado de óbito emitido em nome de João Gabriel Pippa Ferreira – nome que consta em seu registro de nascimento -, a causa da morte foi choque séptico. “Quando a Gabi morreu, eu procurei todas as meninas que já estavam marcadas com bombadeiras para aplicar silicone industrial e pedi uma a uma para que não fizessem o procedimento. Em dois casos adiantou. Mas as outras meninas, eu não sei. Perdi o contato”, afirma Isabella, que tem esperança de alertar outras pessoas sobre os riscos dessas aplicações.

No caso de Gabriella, a família jamais soube quem a ajudou a injetar o produto fabricado para vários fins, entre eles lubrificar equipamentos de ginástica. Segundo Isabella, a irmã conseguiu, ela própria, fazer 13 furos na mama esquerda, mas jamais seria capaz de realizar o procedimento sozinha na mama direita. Sem ter um suspeito, o caso não foi investigado pela polícia, porque sequer foi registrado um boletim de ocorrência. Isabella conta que chegou a conversar com a polícia, mas sentiu-se desencorajada a prosseguir, já que a irmã tinha autoaplicado silicone em pelo menos uma das mamas.

Isabella, no entanto, espera que, ao tornar público o caso da irmã, possa haver maior conscientização sobre o uso desta substância e sobre a necessidade de ampliação de serviços de suporte para o grupo LGBT na cidade. “O que me move é fazer com que outras pessoas não passem pela mesma coisa ou que as famílias que passam pela situação que a gente vivenciou tenham suporte. Eu criei um grupo LGBT do qual sou voluntária e acompanho.”

Sequelas 20 anos após a aplicação do produto

A chefe de gastronomia S., 50 anos, passou por problemas sérios após ter aplicado o silicone industrial. Apesar de não ter tido intercorrência por duas décadas, os danos à saúde começaram a ser sentidos quando ela sofreu um acidente há cinco anos. Por conta da pancada na perna, onde fez aplicações do produto, ela começou a experimentar complicações. “Tive que colocar algumas platinas na perna, mas, ainda assim, o silicone mexe, mesmo depois de tantos anos. Tive edemas e problemas de inchaço para o resto da vida. Às vezes, fico em estado febril e, por conta da má circulação do sangue, nem sempre consigo caminhar. Tenho dores, câimbras e essas sequelas são para sempre.”

S. é travesti e, desde a adolescência, esteve em risco. Aos 13 anos era explorada sexualmente no Rio de Janeiro, época em que teve o primeiro contato com o silicone industrial. “Tinha uma bombadeira que fazia os corpos mais lindos. Cinturinha, quadril, perna, coxa… A gente ficava alucinada por aquilo. O sonho de todo travesti é o silicone”, diz.

S. conta que recebeu aplicações de silicone industrial da cintura para baixo – glúteos, coxa, panturrilha -, aos 30 anos. A intervenção foi feita na Europa, onde morou por um período. Ela conta que pagou cerca de US$ 1.200 pelas aplicações. Ela explica que o material não foi uma escolha, já que, na época das aplicações, as próteses ainda eram pouco conhecidas. “Hoje não se sabe de onde o produto é proveniente, do que é feito, como é manipulado. Tem gente que usa até óleo de avião.”

pesar de sofrer com as sequelas, ela diz não ter se arrependido. “Se eu não tivesse sofrido o acidente, teria sido tudo perfeito. Até então, 15 anos tinham passado e não havia acontecido nada”, diz, embora desaconselhe o uso do material. “Tenho amigas que ficaram entre a vida e a morte. Tiveram que retirar e sofreram deformações, porque necrosou tudo”, afirma.

S. confirma que bombadeiras deixam os estados do Rio de Janeiro e até de São Paulo para realizarem os procedimentos em Juiz de Fora. Ainda segundo a chefe de gastronomia, a maior parte das pessoas que aplica são travestis ou transexuais.

Cirurgião plástico explica riscos do procedimento

O cirurgião plástico Marilho Dornelles, preceptor da residência médica em cirurgia plástica, lembra que há 11 anos precisou fazer uma mastectomia bilateral e reconstrução de pálpebras de mãe e filha que usaram o silicone industrial na cidade. “O organismo reconhece o silicone industrial como um corpo estranho e aí tenta englobá-lo, fazendo pequenos nódulos que trazem grande desconforto para o paciente, porque infecta, vaza, supura, sai secreção e, às vezes, isso é a longo prazo. Em alguns casos, no entanto, o dano é imediato. A área necrosa porque fica sem vascularização, o fluxo sanguíneo é diminuído, aí necrosa a pele, necrosa o subcutâneo. A morte ocorre por septicemia, uma infecção generalizada, e, às vezes, por trombos, porque aquela substância, quando injetada dentro de um vaso de grande calibre, leva a óbito, em função da migração para o pulmão”, alerta.

Marilho explica, ainda, que a retirada do produto é sempre cirúrgica. “Há duas técnicas: primeiro a gente tenta tirar com lipoaspiração, com uma cânula mais calibrosa, mas o resultado é precário. Ao mesmo tempo que o silicone industrial não integra o organismo, ele não fica em um plano único, migra, sendo encontrado, mais tarde, fora da posição injetada por ação da gravidade e em planos mais profundos, sendo encontrados na musculatura. Por isso é difícil de tirar. Uma vez não conseguindo, tem que fazer ressecção e sutura”, explica.

Uso de silicone industrial em seres humanos é considerado crime

O advogado criminal Luiz Alexandre Velloso afirma que o uso de silicone industrial em processos estéticos é considerado crime. “A Anvisa sempre ressaltou a proibição do uso de silicone industrial em processos estéticos. O órgão edita normatizações, edita regulamentos, não só portarias, que destacam isso. É algo rotineiro nos regulamentos e no hotsite da Anvisa.”

Veloso afirma que não é crime comercializar o produto, desde que haja especificação da finalidade de uso, como, por exemplo, limpeza automotiva. Caso o silicone industrial seja vendido sem as recomendações de uso, o fornecedor pode ser enquadrado na Lei 8137/90. De acordo com o artigo 7°, inciso 9°,”vender, ter em depósito para vender ou expor à venda ou, de qualquer forma, entregar matéria-prima ou mercadoria, em condições impróprias ao consumo” constituiu crime contra as relações de consumo.

Já quem comercializa para fins estéticos responderá pela conduta, pois está favorecendo o crime doloso de outrem na medida de suas responsabilidades. O site que abrigar o anunciante também responderia judicialmente. “Muitas vezes, os falsos profissionais compram por meio de sites, onde existe a especificação de uso, e dão destinação diversa”, explica Luiz Alexandre. Nesta situação, segundo ele, o site não tem responsabilidade penal nenhuma, porque houve um desvio doloso de finalidade.

O advogado explica que as aplicações do silicone industrial em seres humanos envolvem vários ilícitos penais, entre eles, o exercício ilegal da profissão. O crime contra a saúde pública também pode ser cotado na ocasião, caso o material seja efetivamente falsificado, corrompido ou adulterado, infringido o artigo 273 do Código Penal Brasileiro. As penas variam de dois a 15 anos de prisão.

Insatisfação com a imagem corporal perturba homens e mulheres

O psiquiatra Bruno Cruz afirma que a busca pelo corpo perfeito perturba não só as mulheres e os transexuais, mas os homens. Segundo ele, tem crescido, de forma assustadora, a procura no consultório por uso de anabolizantes. “Há uma insatisfação com a questão da imagem corporal a ponto de pessoas que não estão encaixadas naquele padrão sentirem-se malsucedidas. Aí vem esse prejuízo e essa busca: se eu não sou assim, como chego a isso? Nesta situação, vale qualquer coisa”, analisa.

Bruno explica que o disformismo corporal (alteração da imagem corporal) é uma patologia que leva tanto à bulimia, quanto a anorexia. “Ao pedir para uma pessoa bulímica ou anoréxica fazer o desenho do corpo dela, a partir de um corpo normal, ela faz a delineação totalmente distorcida da realidade. A gente vê que ela está abaixo do que é saudável, mas a insatisfação da pessoa continua e também a busca incessante pela perda de peso, que é o clássico da anorexia”, explica.

Uma outra patologia que leva ao transtorno de imagem corporal, considerada de difícil tratamento, é o Transtorno de Personalidade Borderline, uma condição mental grave e complexa que compreende um padrão de instabilidade das relações interpessoais, da autoimagem e dos afetos e de impulsividade acentuada que surge no começo da vida adulta, estando presente em vários contextos. “Ele entra muito nessa caracterização de pessoas que vão ao encontro de tudo, mais impulsivas, mais autodestrutivas, emocionalmente mais instáveis e que têm uma sensação crônica de vazio, com uma alteração de autoimagem. Esses indivíduos também têm uma possibilidade de se expor a riscos muito maior que a população em geral”, afirma o psiquiatra.

Bruno explica, ainda, que o desejo de ser “mais bonito” pode levar a uma ideia obsessiva, a ponto de o indivíduo se sentir massacrado. “Neste caso específico, a pessoa não tem juízo de morbidade, não tem crítica sobre aquilo que está acontecendo e do quanto ela está se expondo. Ela quer o resultado. E como ela não tem a crítica, a ideia fica egossintônica, está em sintonia com o que ela quer, tornando muito difícil demover uma pessoa dessa ideia. Ela não tem necessariamente uma doença, mas a forma que está conduzindo sua vida em termos de risco precisa ser pensada se é algo positivo ou não”, considera.

Para o psiquiatra, romper com o que é culturalmente sancionado exige construção de um processo educativo e de formação de valores, já que não há tratamento para a insatisfação. “Tenho muita paciente que, quando se vê acima do peso, para de sair de casa, porque sempre pautou o valor dela, o sucesso dela, à questão da imagem. Na hora que isso se desloca, ela fica vazia. Não tem remédio para isso, é uma coisa de educar desde o primeiro momento, de se construir valores diferentes, porque, depois de enraizado, é muito difícil cuidar disso.”

Por: Daniela Arbex, Michele Meireles, repórteres, e Julia Campos, estagiária sob supervisão da editora Marise Baesso (Tribuna de Minas)

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